Abro-te Meus Caminhos

Contos-diários do Meu Primeiro Sertão Da Caatinga

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Abro-te Meus Caminhos: Contos-diários do Meu Primeiro Sertão Da Caatinga é a história que fui entre março e dezembro de 2019, quando desaventurei-me pelos interiores de mim e da Bahia.

 

Por 260 dias, abriguei-me em roças, desaprendi coisas, aprendi outras e guardei o que pude em meus diários. Refiz-me em uma jornada especial pelas Caatingas, ancorada e orbitante em torno de Senhora Jaguar, com quem morei numa Terra que chamo de Prometida. 

A reunião dessas memórias virou Abro-te Meus Caminhos: um livro digital repleto de fotos e acompanhado de um podcast de 6 episódios, estilo audiobook, com trilha sonora original de Igor Visentin e sons captados pelos sertões.

A publicação ganhou vida graças a uma campanha de financiamento coletivo que fiz no fim de 2020, Dois Escritos para voltar ao Sertão, justamente no intuito de voltar às Caatingas e rever os mestres e mestras que ganhei por lá. 

 

 

Abro-te é um verdadeiro portal que te convido adentrar. 

RESENHAS & COMENTÁRIOS 

O Encantamento dos Caminhos de Lia

por Letícia Coura para Revista Philos

8 de fevereiro de 2021

"Enquanto eu lia os escritos de Lia, ia pensando no quanto os nomes nos apontam caminhos, nos revelam segredos. Mas é preciso saber ler, ler atrás, ler através, e aqui, como mais um presente, ler e ouvir, verbos tão desprezados ultimamente. E Lia, enquanto eu lia, ia me fazendo esses convites proibidos: ler e ouvir suas andanças pelo Sertão.


Escrevo inspirada pela voz da autora, que narrou seus diários – capítulos de uma série em formato de podcast –, e também pelas belas imagens da versão online, e sua escrita com maiúsculas a dar ênfase às suas importâncias. Estou falando de “Abro-te Meus Caminhos: Contos-diários do Meu Primeiro Sertão da Caatinga”, livro digital e audiobook de Lia Rezende Domingues, recém-lançado pela editora La Petite Ferme de São Paulo. E onde somos convidados a compartilhar de sua intimidade através de suas reflexões ao longo de meses de uma primeira viagem pelo Sertão.

Outro dia ouvi de um historiador que o contrário da vida não é a morte, que traz o mistério e nossa maior transformação rumo ao desconhecido. O contrário da vida é a perda do Encantamento. Partindo dessa imagem, ideia, princípio, lógica, Lia já pode pensar em viver para sempre a partir de seus escritos. Tudo ali é Encantamento, a começar pelos nomes das personagens com que ela vai cruzando pelo Caminho, na verdade a grande personagem de seus diários. O Caminho da transformação, o fim de um ciclo pra começar uma nova vida, um Caminho de iniciação. Entrar na vida adulta? Se recuperar de um coração partido, de ilusões perdidas, e descobrir o porquê de estar aqui, ou quem sabe um grande objetivo pra vida? Ou apenas se abrir para o Encantamento dessa mesma vida, que esse sim, a acompanhará por todo o Caminho pela frente."

 


Leia a resenha completa de Letícia Coura na Revista Philos

Lia foi sambar só na ventania

por Luis Osete – comentário de leitor

17 de março de 2021

Lia quer ser Livre e Caminha, como o Homem Que Andava quis ser e peregrinou ao encontro da Terra Prometida. No Portal da Promissão, assentaram seus afetos. Ele, em 1893, com os alforriados, excluídos, marginalizados. Ela, em 2019, com os que insistiram em concluir uma Caminhada Molhada Que Não Teve Fim. Ambos, acamparam Solidões, cultivaram Resiliências, firmaram Compreensões, respiraram Impermanências, edificaram Saudades e voltaram às suas Íntimas Companhias. Escutaram ainda, nas margens da Alegria, o Sopro Sempre Novo do Luzir de Cada Dia: Essa Terra Te Chama, Confia. Essa Terra Te Ama, Fia…

 

"Foi o vento de lá, foi de lá que chegou. Foi o vento de Iansã, dominador que dormia nos braços da manhã e despertou"*. E, ao despertar, entramos na Ventania. Estamos na casa da Senhora Jaguar, com os olhos ardendo como fogo perpétuo, agitando Maracás e Esperanças, dedilhando Rosários e Mirações, entoando Cânticos e Mudanças, alimentando Sonhos e Proteções, consagrando Rapés e Arqueologias no último ano de aglomerações e trânsitos de nossas vidas. É de lá, da Porta Azul recostada na Algaroba Do Terreiro, que as tantas Lias partem pra Sambar...

 

Sambar na Brota dos Pirilampos, no Fundo de Pasto, na Cidade da Pedra Bonita, na Capital, no Porto do Povo Preto, nas Cachoeiras do Velho Chico, no Litoral dos Cajueiros, na Serra da Santa Cruz, no Chão do Descarrego, nas Águas do Rio, nas Constelações Celestes, nos Dois Lados da Janela. "E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há. Azul que é pura memória de algum lugar"*. Do Samba em algum lugar ao traçado vacilante das linhas escritas, Lia introduz um Tempo Mental em uma Sucessão de Passos e inaugura o Relato. O rastro do Pé é o traço da Mão…

 

Só se vê e se escuta bem esse Samba com o Coração*. Só o Coração nos enCoraja à leitura e à audição das narrativas elaboradas por Lia em "Abro-te Meus Caminhos: Contos-diários do Meu Primeiro Sertão da Caatinga''. Só o Coração nos permite uma receptividade descontraída para que as palavras traçadas e ditas se incorporem ao vivido na qualidade de experiência transmitida. Em cada conto-diário, os registros exatos dos horários imprimem a mais precisa forma rítmica do Coração. Cada Caractere é um batimento no Pulsar do Tempo. Cada Onda Sonora é um passo no estranho e difícil Processo do Coração…

 

Na ressonância das vibrações coronárias convoco o professor Jorge Larrosa* para ampliar os sentidos dos ditos de Lia, essa inscrição firmada na ex-posição de uma existência corporal, finita e encarnada no espaço-tempo. Diz Larrosa que o Sujeito da Experiência, seja como Território de Passagem, Lugar de Chegada ou Espaço do Acontecer, se define por sua Passividade, Escuta, Receptividade, Abertura. Passividade feita de Paixão, Padecimento, Paciência, Transformação. A Lia Que Nos Escreve é a nítida expressão da experiência e, ancorada na impossibilidade do Eterno Fixo, elabora um saber singular na preciosa sensação de estar Tão Sem Saber De Tanto. "Oxalá que o vento sopra lá fora...".

 

Ventania de Silêncios a soprar o Caminho em Leitura, o Trajeto em Escritura, o Segredo em Memória, a Morte do Instante em Permanência do Acontecimento. Logo ali, às margens do Rio da Promissão, alargado em Açude para a inundação dos rastros da Vila Sagrada do Homem Que Andava. São as notícias do Dilúvio que Lia nos atualiza, do Hotel Mais Chique da Rua ao Quartinho de Fora da Casa da Senhora Jaguar. É no horizonte sem limites que ela canta o lugar em que se forma o Silêncio*. A trilha evocativa de Igor Visentin, pontuada de acordes nostálgicos e vestígios sonoros das Andanças, tem a proeza de tornar o Canto ainda mais Canto, o Silêncio ainda mais, a Gente mesmo, demais*.

 

"Que eu aprenda, Senhor e Senhora, a praticar o Silêncio e manter-me Firme frente à Vontade De Provar-me Aos Outros...", reza a Menina Que Andava em sua última oração. Desce pra Minas cheirando à liberdade, de volta à sua companhia, como alguém que desenterra um novo mundo na experiência da linguagem. As páginas do Livro Digital se fecham, os Silêncios dos Podcasts se instauram, e muitas flores se abrem em assobios de Amor…

 

A Lia Que Foi Sambar Só Na Ventania agora é o lugar de chegada da Mulher Na Travessia… 

 

AHO!   

 

*1 Trecho da música "Vento de Lá", de Roque Ferreira;

*2 Trecho da música "Vento de Lá", de Roque Ferreira;

*3 Trecho da música "Trem das Cores", de Caetano Veloso;

*4 Referência a uma passagem do livro "O pequeno príncipe", de Saint-Exupéry;

*5 Referência ao livro "Tremores: escritos sobre experiência", de Jorge Larrosa; 

*6 Referência ao poema em prosa "A Palavra Que Cura", de Alejandra Pizarnik; 

*7 Referência a uma passagem do livro "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa.

"Abro-te Meus Caminhos"

por Yago de Bem

17 de janeiro de 2021

Começo este texto estabelecendo que: escrever sobre os manuscritos de memórias de outrem é tarefa complicada. Não há, nesse caso, critérios a serem considerados e julgados como enredo, desenvolvimento de personagens e desfecho. Não há estória; apenas história, e essa não se avalia, se aprecia. Por isso, é importante que saibam todos que li e ouvi “Abro-te Meus Caminhos” com os olhos de uma pessoa que já correu distância imensa, mas para quem o sertão parece mundo de ficção.

 

De início, acho importante destacar que Lia tem uma escrita única, que, arrisco-me, reflete muito sua própria oralidade, com escolhas muito peculiares, mas muito bem colocadas, de construção e vocábulos. Sua característica que mais me marca e que mais aprecio é quando, na escrita – fora do campo da fala –, Lia faz usos muitos interessantes da caixa alta, quebrando normas explícitas com liberdade quase saramaguiana. Esse estilo em nada afeta o ritmo do texto, mas traz novos significados e não pode ser percebido pela narração uma vez que é inerente ao papel.

 

Sobre suas memórias, já havia ouvido parte dos relatos e me abstive atônito, sem encontrar comentários a fazer diante de história que achei tão grandiosa. Ler seus escritos é tarefa muito prazerosa: os relatos são lindos e a escrita é gostosa. Para além, me contradigo em partes para dizer que, apesar do caráter bibliográfico e epistolar desses escritos, há, sim, desenvolvimento de personagem: Jaguar. Lia desenvolve ao longo de seus escritos a construção de seu relacionamento com a senhora sertaneja e o amor que se desabrocha; saímos de “minha mineirinha”, passamos por “filha” e desaguamos em emocionada despedida. 

     

Julgo relevante, no entanto, tecer comentários sobre aquilo de que senti falta. Apesar de termos relatos das dificuldades do sertão como falta de água encanada e abuso do mercado financeiro, não há qualquer comentário sobre o que se passa. Aqui, entramos em âmbito muito pessoal, mas sou dos jovens que acreditam na necessidade de recortes específicos. Lia talvez não tenha nesse ponto o seu interesse, deixando explícito em certo momento de seu escrito que não queria se “comprometer com assuntos tão complexos”. Não é, de forma alguma, demérito, mas quando se é fã da literatura Jorge Amado e suas denúncias, sente-se falta desse viés. 

     

Lia nos entrega um texto com muita sensibilidade, Verdade e Coração (com letra maiúscula, perceba) e não se intimida que a acompanhemos em suas mais diversas jornadas. A mineirinha relata sua trajetória com muita deferência e muito carinho, e não hesita em desnudar momentos de dúvidas e de necessidade de se reenergizar para voltar àquela terra que não a pariu. Ao fim e ao cabo, é um texto muito sobre descobertas, primeiras-vezes e espiritualidade aflorada. Caminho que vale a pena ser lido, compartilhado e trilhado. “Volta pra Terra, Fia”.